Todas as cartas de amor são ridículas…
Um dia desses, pouco tempo atrás, acabei por escrever uma cartinha à uma amiga distante. Isso mesmo! Podia ser um e-mail, uma ligação, um fax, mas foi uma carta à punho. Algo meio “sem pé nem cabeça”, um pouco confuso, um pouco bem esclarecedor, muitos assuntos misturados, falta de contextualização, etc. Foi algo ridículo, mas só agora entendo por quê!
Como a vida é assim, linearmente difusa, hoje talvez tenha encontrado um alento para uma gostosa aflição oriunda da ansiedade de que a carta seja lida e respondida com atenção. Talvez esse mesmo post seja mais esclarecedor que a própria carta. E pena que é provável que ela não o leia.
O motivo desse esclarecedor post (pelo menos pra uma pessoa) é que li uma poesia de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), numa antologia poética que comprei numa estação de metrô. Redigi-a abaixo:
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)